O Itucupê Beach Lounge nasce de um encontro inesperado com a natureza. No instante em que pisei pela primeira vez naquela praia, em Paraty, havia diante de mim um ouriço-do-mar. Naquele pequeno organismo, vindo das profundezas da Baía da Ilha Grande, encontrei imediatamente a inspiração que daria origem ao projeto.
A partir desse encontro, o Itucupê foi concebido como uma arquitetura biomimética inspirada no ouriço-do-mar, não como reprodução literal de sua forma, mas como tradução de sua inteligência natural. Sua geometria radial, estrutura nervurada, superfície porosa e capacidade de criar proteção tornaram-se referências para o desenvolvimento de uma linguagem arquitetônica própria, na qual forma, estrutura e experiência espacial nascem de um mesmo princípio.
Mais do que uma inspiração morfológica, o ouriço trouxe também uma reflexão ética. Falar desse organismo é falar do universo subaquático da Baía da Ilha Grande, de sua biodiversidade, beleza e fragilidade. O projeto propõe, nesse sentido, a construção de uma nova narrativa estética para o litoral entre Rio de Janeiro e São Paulo, distanciando-se dos repertórios convencionais, para buscar suas referências nos ecossistemas, nas culturas e nas inteligências vivas do próprio território.
Essa visão se materializa na construção principal, formada por uma grande cobertura de geometria abobadada e estrutura radial em madeira laminada colada. Sete grandes arcos configuram o espaço e criam aberturas panorâmicas para o mar e para a floresta, dissolvendo os limites entre interior e exterior. Pequenas aberturas circulares e uma claraboia central permitem que a luz natural atravesse a cobertura, evocando a porosidade do esqueleto do ouriço-do-mar. A arquitetura emerge da vegetação como um organismo biomorfo, simultaneamente abrigo, estrutura e paisagem.
A implantação segue a mesma lógica orgânica. Em vez de organizar o programa em volumes isolados e percursos rígidos, o projeto se desenvolve por meio de caminhos que serpenteiam entre as árvores, conectando diferentes atmosferas e experiências. Lounges, redes e skybeds se distribuem pela paisagem, criando espaços de descanso, contemplação e convivência em diferentes graus de intimidade.
O paisagismo combina princípios de agrofloresta com espécies endêmicas e vegetação contextualizada à Mata Atlântica, buscando integrar a arquitetura aos processos vivos do lugar. A paisagem deixa de ser apenas um cenário para se tornar parte ativa da experiência, onde os caminhos, as sombras, cheiros e cores dos jardins e os espaços de permanência compõem um sistema contínuo.
Ao longo desses percursos surgem ambientes dedicados ao bem-estar, como espaços de massagem, meditação e banho imersivo na vegetação, além de áreas flexíveis destinadas a pequenos eventos e encontros. Um grande deck de desenho orgânico articula a piscina, os lounges e os espaços multiuso, funcionando como uma extensão da arquitetura principal e como lugar de convivência entre o mar e a floresta.
A experiência de hospitalidade é sustentada por uma infraestrutura operacional integrada à implantação. Por estar situado em uma localidade relativamente remota, o projeto incorpora uma área de back of house concebida para dar suporte às operações de alimentos e bebidas, serviços e wellness. Essa estrutura permite oferecer uma experiência completa de hospitalidade na praia, preservando a atmosfera natural e a fluidez dos espaços destinados aos visitantes.
A materialidade reforça a relação entre arquitetura, natureza e cultura local. A estrutura em madeira engenheirada explora as possibilidades de um material de origem renovável, combinando eficiência construtiva e liberdade geométrica. Revestimentos em cerâmicas produzidas em cunha, materiais de origem local e elementos desenvolvidos em colaboração com artesãos caiçaras, quilombolas e indígenas da região de Paraty introduzem saberes, técnicas e expressões culturais do território no desenho contemporâneo 100% brasileiro.
Essa aproximação entre conhecimento ancestral, tecnologias construtivas e biomimética estabelece uma linguagem própria fortalecendo as elações entre matéria, arquitetura e territorio.